Baptista Luz

12/08/2019 Leitura de 7’’

Série Semeando Diversidade: Colaboradores 60+ no Ambiente de Trabalho

12/08/2019

Como tornar o ambiente de trabalho atrativo e acolhedor para adultos maduros?

 

O número de idosos no Brasil aumentou em 18% entre 2012 e 2017[1] e, até 2030, o país terá a 5ª maior população idosa do mundo[2]. Nossa pirâmide etária está mudando e esse movimento já é perceptível no mercado de trabalho: entre os 60 e 65 anos, 10% das mulheres e 9,3% dos homens encontram-se desempregados. Os profissionais envelhecem, mas a cultura corporativa ainda encara a idade como uma desvantagem, dando preferência, mesmo que de maneira inconsciente, a profissionais mais jovens.

No artigo de hoje vamos falar sobre etarismo, seus efeitos e como evitar que esse tipo de discriminação se reproduza na sua startup.

 

Etarismo

 

O conceito de etarismo foi cunhado pelo médico estadunidense Robert Butler, na década de 1960. Ageism, em inglês, é o termo que caracteriza a discriminação e a intolerância motivadas pela id0ade. A definição do termo é importante para entender suas implicações na vida dos profissionais maduros.

A área de inovação e da tecnologia é constantemente atrelada à criatividade, à mutabilidade, à energia e à dinamicidade. Por uma questão cultural, o Brasil tende a associar essas características à juventude, de forma de os adultos maduros dificilmente são considerados para ocupar cargos nesse campo. O etarismo no ecossistema das startups tem início nessa preconcepção de quem são os profissionais aptos a preencherem esses requisitos. A discriminação por idade pode ocorrer de forma mais ou menos explícita e, muitas vezes, é involuntária.

 

Mercado de Trabalho

 

Para entendermos melhor como essa discriminação opera no mercado de trabalho, entrevistamos Luciana Gherini, fundadora da startup Senior Social, que entre outros serviços, presta assessoria a organizações no relacionamento com o mercado sênior.

Segundo ela, o afastamento de adultos maduros das oportunidades de trabalho é cultural. Em países leste-asiáticos, por exemplo, há uma forte valorização dos mais velhos, já que sua trajetória de vida remete à experiência, à sabedoria e à razão.

Apesar de acreditar que um dos principais motivos para o baixo número de profissionais maduros no mercado da tecnologia é o preconceito contra essa parcela da população, Luciana traz um cenário positivo. Ela diz que, trabalhando neste meio, é possível ver um movimento das empresas no sentido de incluir e estimular a participação de profissionais 55+, coisa que não acontecia há até muito pouco tempo, indicando um engajamento das empresas na promoção de diversidade no ambiente de trabalho. De fato, grandes corporações têm se comprometido com o tema, oferecendo, por exemplo, vagas de estágio exclusivas para seniors.

Outro dado que revela uma mudança neste cenário, é a existência de startups como a dela, que têm como foco a relação entre empresas e profissionais mais velhos que estão fora do mercado de trabalho, com dificuldade de se reinserir. A ideia é valorizar a experiência e viabilizar trocas e ensinamentos mútuos.

Luciana, porém, alerta que ainda existe uma forte resistência das empresas em investir em políticas de inclusão, que permitam a reciclagem e a atualização de seus profissionais, bem como a contratação de outros colaboradores mais velhos.

 

Como evitar o etarismo?

 

A discriminação por idade é muitas vezes sutil, dificultando a sua identificação e enfrentamento. Como o debate sobre etarismo é muito incipiente no Brasil, ainda não estamos acostumados a notar indícios desse tipo de discriminação.

É o caso dos anúncios de vagas que expressam a procura da empresa por profissionais jovens e dinâmicos. Pode parecer inofensivo, mas esse tipo de abordagem afasta e constrange profissionais qualificados de maior idade, além de estabelecer critérios discriminatórios para a vaga sem qualquer justificativa plausível.

Em muitos casos, na tentativa de agradar e ser inclusivo algumas pessoas agem com um comportamento infantilizador com adultos maduros. Além de desrespeitoso isso desconsidera uma história de experiências e vivências. Possíveis limitação advindas do envelhecimento não devem ser compreendidas como um retorno à infância. A velhice e a infância são momentos muito diferentes entre si com belezas e desafios diversos que não devem ser confundidos. Uma época da vida não é necessariamente melhor ou pior que outra.

Até porque, associar energia/vitalidade/produtividade à juventude é um estereótipo que não necessariamente representa a realidade. Existem pessoas com 50+ anos que possuem estas características enquanto outras de 20 têm personalidades introvertidas e pouco ativas. Muitos adultos maduros são adeptos a esportes enquanto vários jovens também são pouco interessados com lançamentos tecnológicos.

O mesmo vale quanto a assumir que pela idade uma determinada pessoa não teria conhecimento sobre tecnologia. Bill Gates tem 63 anos, Jeff Bezos 55 anos e estes são apenas dois exemplos de personalidades importantíssimas que confrontam estes paradigmas. Presumir características de alguém com base na idade é pouco útil/eficiente além de discriminatório.

A criação de um ambiente inclusivo e acolhedor para adultos maduros passa pelo cuidado de evitar a relação direta entre juventude e as características procuradas pela empresa em um profissional, como energia e produtividade, e pela adoção de políticas institucionais que não os excluam do convívio corporativo.

Essas políticas vão desde a promoção de cursos de atualização, congressos e seminários que permitam o incremento de seus currículos, até movimentos de desconstrução de estereótipos, como os que associam a maioridade à fragilidade, falta de independência e à dificuldade em aprender coisas novas. Outra alternativa para tornar o ambiente “age-friendly” é o regime de horas diferenciado. Em pesquisa realizada pelo parlamento britânico sobre adultos maduros e empregos, o governo do Reino Unido defendeu a adoção de regime flexível de trabalho para adultos maduros, baseado em um estudo que apresentou o dado de que 47% dos profissionais perto da idade de aposentadoria, caso pudessem trabalhar em horários flexíveis e se dedicar mais aos cuidados com a saúde física e mental, retardariam a aposentadoria[3].

Além da importância dessas posturas para aumentar a diversidade no ambiente de trabalho, o que é reconhecidamente positivo, atitudes inclusivas e que respeitam as diferenças evitam complicações legais.

O Estatuto do Idoso, Lei n° 10.741/ 2003, em seu art. 27, veda a discriminação e fixação de limite máximo para idade para admissão em qualquer trabalho ou emprego. A negativa de contratação motivada por idade, segundo o mesmo Estatuto, pode levar à reclusão de 6 meses a um ano, além de multa[4]. Além de atingir a esfera penal, a postura discriminatória frente adultos maduros pode também ensejar, pelos artigos 186, 187 e 927 do Código Civil Brasileiro, dano moral, afinal a ofensa reiterada da dignidade de qualquer funcionário, infligindo a ele dano físico ou mental, consiste em assédio moral.

Ainda, o tratamento igualitário encontra respaldo na Constituição Federal, que em seu art. 7, XXX, proíbe a diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil.

 

Conclusão

 

Como nos outros artigos da série “Semeando Diversidade”, buscamos trazer um panorama das discriminações sofridas por adultos maduros que procuram se inserir ou se manter no mercado de trabalho.

Um ambiente diverso, composto por profissionais de diferentes backgrounds, idades, gênero e orientações sexuais promove uma cultura corporativa diversificada, que vem sendo cada vez mais valorizada pelo público e por investidores. O comprometimento com pautas de minorias, quando genuíno, só tem a acrescentar para uma startup.

Em muitos casos, as experiências profissionais acumuladas em anos de prática podem trazer soluções valiosas. Essa perspectiva, baseada em uma longa carreira, costuma vir de alguém mais maduro. Abrir as portas para uma nova visão às vezes é o que está faltando para o negócio decolar…

 

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